A sensação de sentir-me como se alguém estivesse martelando a minha cabeça vinha me perturbando há tempos. Sentei-me no sofá e pressionei os dedos ao lado dos meus olhos. Alívio. Alívio momentâneo. Logo a dor se espalhava novamente sobre a minha cabeça, que parecia estar à poucos segundos de explodir. Os sons que vinham das ruas, as buzinas, a fumaça. O cheiro de rotina. Tudo me perturbava. E doía. E incomodava e rodava e enjoava. Qualquer coisa que eu tentasse comer, meu estômago rejeitava. Sensação horrível. E o martelo ia e voltava.
Meu celular tocou sobre o sofá. Pensei primeiro se deveria atender, até ler o nome dele no visor. Não resisto. O tempo passou, mas isso não significa que o amor mudou. Atendi. Não precisei falar nada além do "alô" pra ele perceber que eu não estava bem. "Você não está bem, não é mesmo? Quer que eu vá até aí?" Não, não quero. Sou auto-suficiente pra cuidar de mim mesma. É só uma dor de cabeça destruidora, logo passa. Não preciso de você. "Quero, por favor." Parece que não tenho controle sobre as minhas palavras quando se trata dele. O meu cérebro processa bem mais rápido os avisos do coração do que da razão. Porra. "Logo estou aí." E ele desligou, antes que eu pudesse mudar de ideia. Mas, deixando um pouquinho do meu egoísmo de lado, não seria nada ruim tê-lo ali comigo. Cheio de carinho, de cuidado...
Em menos de dez minutos ele já estava entrando. Quase arrombou a porta com tamanha delicadeza que tera. Chegou rápido, não faço ideia de onde viera. Mas confesso que esses detalhes não fariam nenhuma diferença pra mim. Talvez fosse até melhor não saber de nada. Fechei os olhos mas podia sentir cada movimento dele, inclusive quando ele ajoelhou-se perto de mim. Sorri. Foi a única coisa que pensei em fazer na hora. "Cuidarei de você." Logo lembro da sua mão perto do meu rosto sentindo minha temperatura. O chá horrível que ele havia preparado. É só o que lembro. Adormeci. Mas é como se eu ainda pudesse senti-lo. Não sei o que ele fez, mas podia o sentir até o momento que acordei. Acordei e o vi: ele havia carregado a poltrona da sala (e não arrastado, pois sabia que eu o mataria) até o quarto e estava ali, ao meu lado, dormindo com toda sua perfeição. Não queria acordá-lo, mas estava cansativo demais aquele "ficar de cama" que ele me propusera sem ao menos me avisar. Toquei-o e ele despertou rapidamente esfregando a mão nos olhos, como uma criança. "Dormiu bem? Você me parece melhor." E realmente estava. "Estou melhor sim" respondi, feliz por ele estar ali.
Era bem de manhãzinha quando ele foi preparar o café enquanto eu assistia ao noticiário. Eu não lembrava o quanto ele cozinhava bem até sentir o cheirinho dos ovos mexidos vindos da cozinha. Eu estava fraca, com a cabeça levemente latejando ainda. E continuava a reparar no modo como ele manuseava bem os pratos. "Você até parece ser uma ótima dona de casa", brinquei. Concentrei-me tanto no cheiro que nem reparei no silêncio que se pendurou por um tempo. "E você parece que se sairia bem como o homem da casa." Ele me trouxe as xícaras de café e botou os ovos sobre a mesinha do centro da sala. "Onde você estava ontem quando te liguei?" pensei que seria injusto fingir que pouco me importava. "Estava com meus pais. Eles vieram me visitar e estava jantando com eles. Mas não se preocupe." Tenho certeza de quê ele notou a feição do meu rosto que me deixara envergonhada. "É claro que tem problema!" eu disse. "Não, não tem. Eu não me permitiria saber que você estava aqui passando mal e eu sem fazer nada." Me afastei da cadeira e aproximei-me meu rosto do seu. "Mesmo?" "Mesmo".
Ele não parava de me olhar. Acho que esperava qualquer reação estérica. Uma briga, um xingamento, qualquer coisa. O que eu faria normalmente, se não estivesse tão cansada. "Pare de me olhar!" reclamei. Não seria eu se, mesmo acabada, não reclamasse de algo. "Por quê?" ele perguntou de volta. Virei os meus olhos como quando fazia ao ficar brava. "Ande! Cale a boca e tome logo seu café." Ele bebeu e foi a minha vez de observar. "Pare de me olhar" ele imitou com a boca ainda na xícara. Ri. Coloquei minha xícara sob a mesinha, tirei devagarinho a dele de sua mão, inclinei-me e o beijei.
Eu lembrava de quando tinha o beijado pela primeira vez. Anos atrás. Eu jamais esquecera do gosto, que agora estava misturado com o café que ele havia feito. E estava muito bom. Ele me olhava com aqueles olhos vazios, esperando que os meus preenchesse-os. Ele quase engasgou. Ninguém sabia o que falar. E o pior: nenhum de nós lembrava a porra do motivo que havia nos separado. O que, de tão ruim podia ser que tivesse feito com que nós não pudéssemos mais estar fazendo aquilo todos os dias, o tempo todo? Ele me puxou de novo e me beijou. Eu tentei lembrar mas logo esquecia aquela ideia. O que importava era ali, aquele momento. "Eu te amo" ele me disse. "Eu sei, eu sei" respondi incapaz de raciocionar uma resposta mais decente. "Fica comigo pra sempre." E de repente me veio a memória: era isso que ele tinha dito da última vez, e eu disse não. E o olhava e percebia que minha resposta não poderia ser outra: "Claro." Me senti completa, sabe? Seria essa a ideia de felicidade que eu tinha? Estar com ele, sentir-me completa, inteira, sem estar faltando nada... Tudo no lugar.
Ele sorriu de novo com os dentes brancos e eu senti o gosto de estar feliz misturado com a sensação de estar protegida misturado com o gosto de café.
- Karla Reis.
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