Estação da Luz. Hora de pique. Aquele vai e vêm de pessoas. Artistas procurando espaço para mostrar sua arte. Homens e mulheres esbarrando-se, apressados, desesperados, afogados em preocupações. Misturados à pensamentos, e nenhum pingo de paciência. Mais uma sexta-feira qualquer.
O chacoalhar do trem. O barulho enferrujado das rodas. Um enorme alvoroço na porta dos trens. É aquele entra e sai; corre corre; vai e vem; empurra e sobrevive. Sempre com muita pressa. Sequer olham para o lado, para trás. Apenas seguindo o inevitável caminho da mesmice. Esses seres humanos: dignos de personalidades totalmente contraditórias.
Mas hoje, o Destino revelaria mais uma de suas surpresas. Até então tudo muito comum. Os mesmo trinta graus de ontem, o mesmo azul-anil cobrindo o céu. O vento a direcionar-se para o mesmo lugar. Acidentes, ambulâncias, sirenes, partos, orgasmos. - Nada de mais, tudo igual. Quase tudo, na verdade.
Apenas um aspecto físico foi necessário: o cair de algumas folhas. Pequeno detalhe, sem muita importância, ignorado pelos os demais. Despercebido, porém, cheio de significados. Aquele mero acontecimento mudaria, para sempre, a vida de duas pessoas.
Entre o suor e pressa desnecessária, se encontravam as vítimas. Logo após o alavancar do trem, a breve partida.
Postos um ao lado do outro, como quisera o Destino, ali estavam. O homem e a mulher, dois perfeitos amantes que ainda não se conheciam. Olhos sem muito brilho, lábios entreabertos, esbelto e avermelhado: nada comum para um homem. Pensou a mulher. Cabelo solto, olhos acompanhados de olheiras, sorriso vazio no rosto e distante: bastante atraente. Pensou o homem.
- Dia quente, não é? - Primeira tentativa de aproximação, feita pelo homem.
- Sim. - Curta e grossa, a mulher.
Perseguindo o seu caminho, o trem não parava: chacoalhava e irritava. Muitas pessoas dentro de um único vagão. Sufoco, estresse... vontade nenhuma de parecer simpático.
- És daqui? - Segunda tentativa, mas uma vez feita pelo homem.
- Suponho que sim. - Fria e culta, a mulher.
Houve uma rápida troca de olhares e um suspiro perdido no ar. E a aparência de um corpo desistindo; o homem acabara de perder o interesse. A viagem continuou, sem parar, com pressa. No decorrer do caminho um livro foi aberto. O que chamava a atenção da mulher (diga-se de passagem). Trazia nas mãos um exemplar de "O Vendedor de Sonhos", obra de Augusto Cury.
Sobrancelhas erguidas, os olhos voltados diretamente ao homem: a mulher via, ali, o primeiro aspecto para o seu interesse - livros.
- É um bom livro. - A única, e bem sucedida, tentativa da mulher.
- Espero que sim. - Sorriu o homem.
E foi assim. Livro: o detalhe final que definiu o desfecho da história escrita pelo Destino.
Karla Reis.
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