Karla Reis

Karla Reis

terça-feira, 8 de março de 2011

E o remetente era o Destino.

          Buzinas ensurdecedoras. Fumaça a escurecer o céu, ligeiramente poluído logo pela manhã. Aglomeração de pessoas. Empurrões pra lá e pra cá, correria pelas ruas. O tempo voando e se afastando das mãos do destino. Tudo respirando a agitada rotina do amanhecer. Mais um dia movimentado na grande metrópole. - São Paulo.


          Estação da Luz. Hora de pique. Aquele vai e vêm de pessoas. Artistas procurando espaço para mostrar sua arte. Homens e mulheres esbarrando-se, apressados, desesperados, afogados em preocupações. Misturados à pensamentos, e nenhum pingo de paciência. Mais uma sexta-feira qualquer.

          O chacoalhar do trem. O barulho enferrujado das rodas. Um enorme alvoroço na porta dos trens. É aquele entra e sai; corre corre; vai e vem; empurra e sobrevive. Sempre com muita pressa. Sequer olham para o lado, para trás. Apenas seguindo o inevitável caminho da mesmice. Esses seres humanos: dignos de personalidades totalmente contraditórias.

         Mas hoje, o Destino revelaria mais uma de suas surpresas. Até então tudo muito comum. Os mesmo trinta graus de ontem, o mesmo azul-anil cobrindo o céu. O vento a direcionar-se para o mesmo lugar. Acidentes, ambulâncias, sirenes, partos, orgasmos. - Nada de mais, tudo igual. Quase tudo, na verdade.
 
          Apenas um aspecto físico foi necessário: o cair de algumas folhas. Pequeno detalhe, sem muita importância, ignorado pelos os demais. Despercebido, porém, cheio de significados. Aquele mero acontecimento mudaria, para sempre, a vida de duas pessoas.

          Entre o suor e pressa desnecessária, se encontravam as vítimas. Logo após o alavancar do trem, a breve partida.
Postos um ao lado do outro, como quisera o Destino, ali estavam. O homem e a mulher, dois perfeitos amantes que ainda não se conheciam. Olhos sem muito brilho, lábios entreabertos, esbelto e avermelhado: nada comum para um homem. Pensou a mulher. Cabelo solto, olhos acompanhados de olheiras, sorriso vazio no rosto e distante: bastante atraente. Pensou o homem.
          - Dia quente, não é? - Primeira tentativa de aproximação, feita pelo homem.
          - Sim. - Curta e grossa, a mulher.

          Perseguindo o seu caminho, o trem não parava: chacoalhava e irritava. Muitas pessoas dentro de um único vagão. Sufoco, estresse... vontade nenhuma de parecer simpático.
          - És daqui? - Segunda tentativa, mas uma vez feita pelo homem.
          - Suponho que sim. - Fria e culta, a mulher.
 
          Houve uma rápida troca de olhares e um suspiro perdido no ar. E a aparência de um corpo desistindo; o homem acabara de perder o interesse. A viagem continuou, sem parar, com pressa. No decorrer do caminho um livro foi aberto. O que chamava a atenção da mulher (diga-se de passagem). Trazia nas mãos um exemplar de "O Vendedor de Sonhos", obra de Augusto Cury.
 
          Sobrancelhas erguidas, os olhos voltados diretamente ao homem: a mulher via, ali, o primeiro aspecto para o seu interesse - livros.
          - É um bom livro. - A única, e bem sucedida, tentativa da mulher.
          - Espero que sim. - Sorriu o homem.
 
          E foi assim. Livro: o detalhe final que definiu o desfecho da história escrita pelo Destino.


Karla Reis.

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