Karla Reis

Karla Reis

domingo, 27 de fevereiro de 2011

O temido barulho da morte

          Eu estava perdendo-o, e não apenas fisicamente, mas do modo mais doloroso e mais profundo que uma pessoa pode perder alguém.

          Deitada na pequena cadeira, tento dormir ao menos um pouco. Ouço alguns gemidos de outros pacientes vindo do corredor e mesmo assim tento me concentrar na tão esperada cirurgia que meu amado irá fazer amanhã. É angustiante você saber que vida de uma pessoa está em risco e não poder fazer nada a respeito. Que você não pode afirmar a certeza de uma nova vida, nem dizer que "tudo vai ficar bem". Aliás, era isso o que eu costumava dizer a ele nos momentos mais difíceis. 

          Sempre fomos um elo. "A tábua de salvação, o parapeito que evitava o abismo, o curativo do machucado". Nunca fui alguém otimista. E mesmo sabendo que ele vai precisar de muitas forças para sobreviver, eu tenho esperança de que ele permaneça nesse mundo e seja o meu maior motivo para continuar aqui também. 

          Seis e quarenta e três, ouço a respiração ofegante dele e me levanto ligeiramente. Posso ver o clarão no céu e sentir o vento gélido que atravessa a janela semi-aberta e me arrepia por inteira. A minha imensa preocupação e meus pensamentos perturbadores de como será viver sem esse homem não me deixam dormir. Ele abre os olhos, olha para os dois lados e eu me aproximo, pegando levemente na sua mão que mesmo tão frágil, tão singela, se encaixava perfeitamente com a minha.

       "Eu preciso de pedir uma coisa." Finalmente sua voz saiu. Tão rouca e lenta, aparentando não cultivar muita preocupação. Parecia até estar conformado. 
          "Diga, meu amor." Respirei fundo e tentei, com todas as forças que ele me dera com o tempo, não chorar. Eu raramente me permitia esse tipo de coisa. Ainda mais perto dele.
          "Promete que vai se cuidar? Que vai fazer tudo certo caso eu não esteja aqui?" Pronto. Ele disse, num único impulso, as frases que eu mais temia. Eu tentava adaptar esse sentimento de conformismo no meu coração, mas me parecia impossível. Algo bem grande em mim implorava para que ele ficasse e pudéssemos viver a vida que tanto planejamos, dar e ele a tão desejada família. 
          "Prometo, meu amor, claro." Eu disse com um certo impulso. Por mais que minha mente ainda dissesse que teria esperanças, meu coração já se perguntava como eu iria poder viver sem ele.
           "Eu te amo." Soltou esses três suspiros no ar. Uma lágrima escorria sobre seu rosto. Aproximei-me mais ainda, e beijei sua face pálida, fria e já sem vida.
        "Eu também te amo, meu amor. Muito." Soltei, e sem pensar. Ele já tinha a completa ciência disso, porém, era uma coisa que eu não me cansava de repetir. Nunca cansei de ver seu sorriso largo e seus braços se abrindo a espera dos meus, logo após a minha frase.

          Dói-me vê-lo assim, e tentar viver sem ele seria superestimar demais. Eu me acostumei, me aconcheguei e me tornei uma eterna dependente dele. Ele se tornou uma gigantesca parte de mim. Até que notei que algo estava errado, e fui correndo gritar por qualquer médico ou enfermeiros. Desesperadamente virei meus olhos para ele, e por míseros segundos, meu coração parou. Seus olhos reviraram, sua boca continuou aberta e, suas mãos que antes pereciam se forçar contra elas mesmas, agora relaxavam. Os médicos me empurraram e entraram rapidamente no quarto...

          Foi aí que ouvi o temido barulho da morte.



Karla Cristina.

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