Sinto-me desesperada atrás de descobrir que se tudo foi um sonho, ou não. Começo a lembrar dos detalhes. [...]
Já era noite, eu voltava pra casa a pé no meio da rua escura. A sensação de querer acordar de um sonho, a sensação de querer estar sonhando. Eu caminhava lentamente, não lembro ao certo pra onde ia nem de onde voltava. Só queria chegar logo ao meu destino. Lembro das luzes dos postes acesas, do apito do guarda que vagava na madrugada fria à 1 quilômetro de distância, meu pensamento à, no mínimo 50 quilômetros de distância. Lembro das lojas com as vitrines acesas, e o badalo do relógio da igreja que anunciava a hora, uma da manhã.
Quando percebo, há uma multidão aglomerada no meio da rua. Policiais, curiosos, ambulância. Sinto meu corpo gelar. Tento me aproximar, e lembro do corpo esticado ao chão. Amassado como nos desenhos. Lembro de sangue, sangue que tanto me apavora. Lembro da cara assustada das pessoas, lembro friamente. Lembro das fraturas expostas, do plástico despido, misturado ao sangue que ficava meio alaranjado conforme a luz dos postes. Misturados ao louro cabelo de poliéster. Misturados com a grande interrogação que minha mente virou.
Ao fundo lembro de ouvir uma mulher, desesperada, que gritava "Ele pulou, ele pulou!". Ele tinha pulado. Pulado da ponte, eu falo.
Um homem se aproxima.
- "Ele não morreu da queda; alguns carros passaram por cima".
Lembro de sentir meu corpo frio, a sensação de querer acordar de um sonho, a sensação de querer estar sonhando.
Continuou.
- "Isso sempre acontece por aqui. Mas, esse aí era pervertido. Solitário, coitado. Pulou com uma boneca inflável, loura. Você precisava ter ouvido o barulho que fez quando o primeiro carro passou por cima, mas acho que nem foi da batida. Receio que tenha sido da boneca estourando mesmo".
Por algum motivo, eu lembrei de tudo o que havia comido horas antes.
- "Eu, se fosse você, iria embora. Do que vale ficar aqui, olhando esse homem esmagado no chão ao lado de uma boneca inflável? Ele era pervertido, coitadinho. Imagina o que vão pensar!?"
Por outro motivo alheio, eu lembrei do que estava acessando na internet.
- "Ele dizia que era mais fácil transar com uma boneca e pular de uma ponto do que achar alguém que não fosse maluco".
Lembro de perguntar se atirar-se de uma ponto não era coisa de gente maluca também. Lembro detalhadamente de sua resposta.
- "Se é normal eu não sei, só sei que não foi o primeiro".
Lembro de me virar para trás e perceber a mar dos meus sapatos carimbada no chão com sangue, gordura e cabelo de poliéster. Logo voltei minha atenção novamente ao homem, que agia como se aquilo fosse normal.
- "Mas, acho que ele pulou porque descobriu que era doente também. Bom, com essa boneca junto, ele não podia ser normal".
Lembro de ter perguntado se não estávamos fugindo do assunto, o ponto principal da coisa.
- "Olha minha senhora, você pode estar esmagado, no meio da rua, rodeado de sangue. Mas, seu houver alguma coisa que te faça parecer ´pervertida, é a única coisa de que todo mundo vai lembrar".
Ps.: Eu fiz esse texto com as minhas palavras, parafraseando Pc Siqueira. É um texto muito bom que ele fez, que eu li uma vez e gostei muito, acho que é bem real. Espero que tenham gostado. Se quiser ler o texto original, dá uma passadinha lá no Tumblr dele. ;) Beijos.
Karla Cristina.
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