Foi como se alguém tivesse aberto a janela. Senti o sol batendo no meu rosto, a temperatura com que eu o sentia fazia subentender que eu estava ali há um tempo. Revirei meu corpo e encontrei-me com a parede. A pureza da tinta branca me fazia pensar. Senti um calafrio — ou qualquer coisa que tenha feito eu sentir uma corrente elétrica atravessando meu corpo — quando percebi que, mais uma vez, ele não estava ali. Seria a maior realização de um sonho poder acordar e vê-lo dormindo. Ou quem sabe trazendo o café pra mim. Ou me acordando com um beijo no rosto. Ou.
Tão torturador quanto não te ter sempre que eu quisesse era saber que não podia fazer nada pra mudar isso. Era convidativo o modo como eu sentia saudade. Quando mais saudade, mais vontade de estar perto. Talvez como um ciclo incessante que continha todos os "querer" que você me causava. E, pode parecer exagero, mas eu estava numa fase que deseja estar ao seu lado o tempo todo. Uma pena as coisas não acontecerem assim. Uma pena também não pode escolher quando elas devem acontecer.
As coisas haviam criado uma proporção gigante sobre nós. Não paramos em nenhum momento pra pensar se isso era certo, não controlamos. E naquela hora, até mesmo um de nós precisar de um tempo pra si próprio, parecia doer. Me sentia entrando numa espécie de cela: acorrentada por meus delírios e aprisionada pela razão. Era difícil ter que entender as escolhas. Abrir mão; Esperar... Ter paciência. E realmente: assimilar nossa vida à de outra pessoa é algo que está longe de ser fácil.
O celular vibrou. Estendi o braço e, com um esforço que parecia infinito, alcancei-o. Havia uma mensagem. Olhei pro teto e meus pensamentos alternavam-se com a frequência dos ponteiros do relógio onde os "tic-tac" eram "ler" ou "não ler". Ler seria como voltar atrás. Eu sabia que ele não havia qualquer intenção de me fragilizar ou me fazer mal. Mas eu sabia que qualquer demonstração do carinho que ainda existia entre nós me faria deslizar. Não li. Decidi naquela hora que o dia seria meu. Guardei toda a tristeza no coração, fabriquei ânimo e saí da cama. Eu deveria ser tão forte quanto ele. O tempo que nós queríamos sozinhos faria bem (ou pelo menos era pra fazer).
Escovei os dentes, troquei minha roupa e me enfeitei com sorrisos. Por dentro eu ainda podia sentir a dorzinha que a falta dele me causava... Eu tentava me convencer que não, mas na verdade, aquele seria o primeiro de muitos dias difíceis que eu teria de passar sem tê-lo comigo. Estufei o peito, peguei as chaves e abri a porta. Lá estava ele. Tão amolecido quanto eu, veio de encontro pro abraço. Não pensei duas vezes antes de entregar-me novamente aos seus braços. Era mais do que certo: pertencíamos um ao outro.
E naquela hora eu me tornei a pessoa mais forte do mundo.
- Karla Reis.
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