Karla Reis

Karla Reis

segunda-feira, 16 de julho de 2012

No escurinho do cinema


Não havíamos planejado nada além de ir ao cinema. Tudo tinha acontecido normalmente até as luzes apagarem-se e os refletores começaram a transmitir o filme. Da outra vez que estivemos numa situação parecida, não havia nada demais. Nossos amigos estavam ali com a gente e tudo parecia mais fácil. O que naquela hora estava sendo o oposto. Todos se intreteram tanto com o filme que acabei tendo a sensação de sermos os únicos ali dentro.

Fiquei imóvel. Eu daria tudo pra saber o que você estava pensando naquele momento. Será que estava tão concentrado no filme quanto parecia ou sentia uma inquietação por dentro também? Uma coisa era certa: havia conexão entre nós. Talvez eu até saiba porquê mas não faço ideia que tipo de características atribuir à ela. Parecia boa, mas é de praxe que pra toda percepção tenha uma exceção. Minha mente tentava focar na tela. Eu tinha diante dos meus olhos um dos atores mais fodas que existem e um filme com tudo pra ser ótimo, não teria porquê não prestar atenção. Foco. Era isso que faltava. Meu cérebro fertilizava a ideia de quê era pra eu assistir sem perder sequer um segundo mas o coração fazia minhas mãos soarem...

Vi que tudo estava realmente perdido quando senti a ponta dos seus dedos relando nos meus. A energia que recebi foi como uma corrente elétrica atravessando meu corpo. Não, alguma coisa estava errada. Não era pra ser assim. Tentei focar no filme novamente mas minha mão ainda continuava lá. Nossos dedos mexiam-se num mesmo ritmo até entrelaçarem. Tudo bem, não seria o fim do mundo. Eu só precisava controlar a inquietação que havia dentro de mim. Olhei para os lados, para o filme... Não tinha como escapar. Eu tentava ver aquilo como algo normal, uma vez que a minha alma já estava totalmente entregue. Foi então que eu desisti de ser do contra. Era uma sensação boa, fora do normal e não tinha porquê deixá-la passar.

Nossas mãos já estavam entrelaçadas há um bom tempo e eu não conseguia esboçar nenhum tipo de reação a não ser acariciar seus dedos com os meus. Você quebrou o gelo quando apertou meu nariz. Era uma brincadeira só nossa; Uma espécie de "comunicação" que eu estabeleci contigo. Eu não acreditaria firmemente naquela conexão que parecia haver ali se não tivesse percebido que ao soltar meu nariz, você virou levemente minha cabeça em sua direção (com um pouquinho da minha ajuda, confesso). Pronto, eu tinha ali meu dois olhos procurando o castanho dos seus em meio aquela luz fraca do cinema. Encontrei. Você trouxe nossas mãos pra mais perto e mordeu bem devagar o meu dedo. Estávamos cada vez mais conectados e eu adorava aquele frio na barriga. Foi quando passei meu braço por baixo do seu e comecei a usar teu ombro como apoio.

Há muito tempo que não me encaixava em um lugar tão bom. O filme foi passando e junto com ele a nossa timidez. De cinco em cinco minutos eu te olhava. Comentávamos uma coisa ou outra, ríamos por qualquer pequeno detalhe... Aquilo estava tornando-se o tipo de coisa monótona que a gente deseja pra sempre. O momento que podia não ter fim, o filme que podia durar horar e horas... Toda essa ideia reforçou-se mais ainda quando, após uma trombada de nariz e um beijo se esquimó, sua boca tocou a minha. O escurinho que fazia dentro do cinema tornou o momento ainda mais especial. Era um beijo calmo. Foi rápido e teria sido o melhor se nossos lábios não tivessem se encontrado mais naquela noite. 

Daquele momento até as luzes se acenderem, eu fui totalmente sua. Mais do que já dissera e mais do que tentava ser... Saímos da sala e fomos até a portaria. Eu ainda tinha um tempo. O cara que estava com a gente foi tomar um suco, acabou encontrando uns amigos e ficando por lá. Estávamos de pé do lado de fora do shopping. Nos abraçamos e o vento que fazia naquela noite pareceu pouco quando seus braços me acolheram. Lembro de ter erguido os pés pra alcançar a sua boca novamente. Havia mesmo algo em você que fazia com que eu quisesse estar contigo naquele momento.

Fomos sentar ainda mais pra frente, pra lá do estacionamento onde haviam poucos carros. Eu não conseguia esconder o frio que estava sentindo, e o jeito que reprimia meus braços contra meu corpo fazia parecer que eu queria ficar abraçada. E eu não só queria, eu precisava. Ficamos ali, parados. O vento vinha na nossa direção e sempre que ele soprava mais forte você me levava pra mais perto. Meus dedos doíam e minha boca estava roxa, mas eu suportaria todo aquele frio pelo tempo que fosse preciso se você continuasse ali comigo.

É uma pena que tudo tem que acabar uma hora. Meu pai já estava quase chegando quando escontramos nosso amigo. Conversamos por um tempo e, apesar d'eu entender toda aquela situação, não gostava de ter que ficar sem te abraçar pra não deixá-lo sem graça. Meu pai chegou; Me despedi de vocês e fui até o carro. Eu estava indo embora como quem quer ficar. 

Entrei no carro e não contive o sorriso. Sei esconder muito bem minha tristeza mas ainda não aprendi a fazer o mesmo com a felicidade. Naquela hora eu era um poço contendo todas as sensações boas que se pode imaginar. Meu pai me questionou sobre o ânimo exagerado e eu usei com ele a desculpa mais esfarrapada de todas: "Só estou lembrando de como o Will Smith é engraçado." Fui o caminho inteiro assim, tentando me controlar o máximo possível. Cheguei em casa e meu pai logo foi deitar. Comi um pedaço de pizza que estava guardado, escovei os dentes e depois de acessar um pouco a internet, fui me encontrar com meu cobertor. Minha cama estava quente e aconchegante, mas nada comparado aos seus braços. Eu quis voltar no tempo e estacioná-lo quando estivesse naquela sala de cinema segurando sua mão e usando seu ombro como apoio pra minha cabeça. Há muito tempo eu não me sentia assim.

Adormeci. Naquela noite estava me sentindo completa.

- Karla Reis (@karlarreis)

2 comentários:

  1. Essa sensação de estar lá, no cinema, tem mesmo essa coisa de conforto. Afinal, você precisa apenas sentar e o observar o outro, enquanto a tela é só enfeite. E ninguém vai te perturbar.

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