Você disse que, se um dia ameaçasse ir embora, voltaria. E olha só... Os dias estão passando e não tenho sequer uma notícia sua. Não sei onde e nem com quem estás. Procurei-te por toda parte; desde o centro da cidade até aquele lugar no qual ficávamos só você e eu. Rodeei tudo a minha volta e nada, nenhum vestígio seu. Aliás, sempre fora bom nisso e — não me pergunte o porquê — essa era uma das coisas que me fazia gostar incansavelmente de você: o modo como ia e voltava pra mim. Mas, parecia que não voltaria mais. A incerteza já começara a doer.
Quando, cansada, eu desisti, deitei em minha cama e comecei a bisbilhotar dentro de mim. E sabe de uma coisa? Lá estava você. Era um pouco de tudo, espalhado... Por toda parte. Era como se eu sentisse suas mãos sobre o meu ombro, me dando equilíbrio. Sua barriga alinhada às minhas costas me mantinha em pé, firme e forte pra sustentar todo o resto. Seus pés, debaixo dos meus, aliviavam todo o cansaço físico do meu corpo; Já seu rosto, apoiado no meu ombro e fazendo com que eu pudesse imaginar sua respiração, me aliviava interiormente. Eu conseguia sentir todo o calor do seu corpo dentro de mim. Sua pulsação me alimentava, me nutria. Era o ponto principal, como se eu precisasse não só do meu, mas do seu coração pra me manter viva.
Foi então que eu comecei a rever as coisas. Coloquei tudo em ordem. Talvez fosse tarde demais pra organizar a minha vida, talvez ela nem devesse estar como estava; Mas é que quando você chegou, tudo começou a ter um outro porém e eu me desalinhei. Perdi a direção, desequilibrei. A certeza de quê você tinha vindo pra ficar fora a única coisa que me incentivava a manter os pés no chão. O resto era totalmente incerto e eu sabia disso. Mesmo assim, caí na tentação e despejei sobre você toda a minha vida. Os meus dias, minha rotina e todas as minhas obrigações começaram a depender totalmente da sua vontade de estar comigo. Era eu, capaz de deixar qualquer coisa e qualquer alguém para estar do seu lado. Foi assim que acabei me perdendo e me deixando pra trás.
Depois de um certo tempo deitada, consegui me desapegar da ideia de girar minha vida em torno das suas vontades. Você tinha dito que sempre voltaria, nunca disse quanto tempo ia demorar. Eu já deveria ter me acostumado com isso. E se eu já tinha suportado tantas idas e vindas até aquele momento, porquê não ser forte e segurar as pontas mais um pouco? Afinal, você estava longe, mas ainda estava dentro de mim, da maneira como havia prometido estar, do modo como eu disse: sustentando completamente o meu interior.
E quer saber? Eu conseguiria viver muito bem daquele jeito.
— Karla Reis.
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