Ela não era uma menina qualquer. A sua vida nunca foi fácil. Perdera sua mãe assim que nasceu e teve que conviver os outros seguintes anos sendo cuidada pela madrinha. Uma pessoa completamente vaidosa, soberba e que mal se importava com a menina. Afinal, não ligava. Nunca precisou dos seus grandes cuidados. Passou por tanta coisa na sua vida e tornou-se responsável o suficiente para fazer as suas coisas dependerem somente dela.
Seu pai, do qual conviveu até seus oito anos, era um homem magnífico. Ele soube fazer o papel de pai e de mãe ao mesmo tempo. Sacrificava os seus sonhos para que pudesse correr atrás dos de Ana. Isso, Ana é meu nome. Injustiçada pela vida, que tirou-o dela também tão cedo. Sempre que tinha tempo, passava horas contando as histórias sobre a mãe de Ana. Ele enchia-se de orgulho ao falar dela! Deve ter sido uma incrível mulher. E fora.
Ana herdara dela sua paixão pelos livros. Foi meu único refúgio quando meu pai morreu. Eu estava sozinha, só me restavam as histórias guardadas no fundo do baú. E sempre que conseguia escapar das tarefas que a madrinha impunha, Ana se escondia debaixo da escada que seguia para o quarto, e lá perdia grande parte do seu tempo devorando as palavras. As doces palavras que um dia sua mãe lera.
Ao treze anos, Ana já era uma menina bem inteligente. Porém, a madrinha desejava um futuro diferente para ela. Achava que aquela história de ficar lendo era ultrapassada demais. Ultrapassado demais eram os seus vestidos, ora! Ingênua, Ana sempre guardava todas as palavras que desejava esbanjar sobre a madrinha. Ela não tinha coragem para nada e sempre tentava encontrar algo que a fizesse bem. Com certeza despejar palavriados e mal-criações para cima da madrinha não seria a melhor escolha.
Foi aí, no auge da sua inquietação, que Ana se lembrou da biblioteca central que um dia seu pai comentara com ela. Não hesitou; Pegou logo sua mochila e foi se encontrar com Seu Eugênio, bibliotecário e melhor amigo do papai.
Por fora, a biblioteca era um grande e velho monumento. Suas formas era bonitas, até. Mas estava abandonada. Abandonada? Como assim? É... Nem todos gostavam tanto dos livros como Ana. Que decepção! Os livros nos levam a tão maravilhosas aventuras... Entende o que quero dizer? Aventuras!
Entrou. Pequena e imperceptível, foi logo chamando a atenção do velho que, sentado no banco, segurava um grande livro e uma xícara de chá.
— Oi, meu nome é Ana. Sou filha do Sr. Augusto. O senhor deve ter o conhecido. — Que segurança me passavam aqueles olhos brilhantes por debaixo dos óculos. — Ele me falou muitas vezes sobre o Senhor e esta biblioteca. Achei que já passara da hora de visitá-lo.
— Olá, querida Ana. Que prazer conhecê-la... Seu pai me falou muito sobre você. (O que será que ele havia falado? Teria falado bem?) Ora Sr. Eugênio, guarde seu excesso de simpatia para depois. Ana quer mesmo um turbilhão de sinceridade. E um amigo. — Posso ajudar em alguma coisa?
Não. Ele não podia. Ninguém nunca poderia trazer os pais de Ana de volta.
— Pode sim... Na verdade, eu procuro novas coisas para ler.
— Venha, vou te mostrar alguns dos meus livros favoritos. — Largou a xícara e levantou, mostrando a Ana o caminho.
A biblioteca era grande, imensa, e abandonada realmente. A única coisa que parecia dar vida ao lugar era o sorriso do Seu Eugênio, que por trás escondia um homem triste e só. Andando nos corredores das prateleiras, ele mostrava diversos títulos e nenhum despertava em Ana a sensação que ela procurava.
— Não, eu não falo destes livros, Sr. Eugênio. Eu quero algo diferente. (Ele a entenderia, afinal? Ou teria ela perdido mais um pouco do seu tempo atrás do que não existia?)
— Olhe Ana, preste atenção nestas sábias palavras que seu pai me dissera um dia: "Em algum lugar, os sonhos que você ousa sonhar, tornam-se realidade." Você sabe de que lugar ele falava? — Ela parecia entender. Era uma garota indecifrável, difícil... Mas ao mesmo tempo uma menina doce, verdadeira e, acima de tudo, esperta.
— Os livros?
Seu Eugênio sorriu. Ana ficou séria. Não entendia o porquê do sorriso, nem mesmo sabia se estava fazendo o certo continuando ali. Ele nunca entenderia mesmo. Suas expectativas chegavam ao fim. Ei, espere. Ter paciência! Ter paciência... Nada vem fácil. Dê mais tempo ao Seu Eugênio, Ana. Ele é um homem bom.
— Olhe Ana, não faz nem uma hora que nos conhecemos e eu mal sei o que você procura. Porém, vou dar-lhe uma dica que eu espero seriamente que funcione. — Desembucha! — Sonhe, Ana! Sonhe. Faça isso pelo grande homem que seu pai foi.
"Sonho" era uma palavra imensa, cheia de mistérios, cheia de possibilidades. E como conseguiu viver até aqui se não pensou nisso antes? É claro! Sonhar... Não, não. Espere! Os sonhos são delírios da imaginação, o que eles podem fazer por Ana? Ah, já sei! Fazê-la reviver os momentos bons que, impensavelmente, deixou passarem despercebidos. Resgatar a Ana na presença do pai. Uma Ana que sonhava e acreditava que a mãe era mesmo uma estrelinha na imensidão do céu escuro. Será? Não sabia... Estava confusa. Depois de perder o pai, Ana tornara-se uma personagem cética nesse palco da vida.
"Acredite Ana... Tudo é possível pra quem sonha.", dizia o pai. Ah... Que saudade reascendia dentro de Ana naquele exato momento. O Seu Eugênio e seus olhos brilhantes, o suéter velho, a alma velha. O coração límpido e novo. As lembranças boas que ele resgatava sobre seu pai. Não, não... Talvez seja só mais um golpe da vida. Não ceder, não ceder!
Após um tempo intacta no meio do corredor, Ana despediu-se de seus pensamentos na mesma hora que acenava para Seu Eugênio com um rápido "Até logo."O velho ficou parado, avistando a pequena garota que partia. Será que ela voltaria? Oh, não espere. Ana é assim... Surpreendente.
Chegou em casa e mal deu olhares para madrinha que usava máscara de pepinos no rosto. Foi direto para seu quarto. Perdeu-se em meio as tantas interrogações que dominavam sua mente. "Sonhe, Ana! Sonhe."Sonhar? Isso parece tão... inútil. Porém uma inutilidade intensa, que fazia Ana pensar em tudo o que Seu Eugênio disse a ela. Não poderia pensar. Queria mesmo era esquecer aquela história maluca de sonhos. Talvez contar tiraria sua atenção. Então, vamos lá: 1, 2, 3, 4, 5... Por fim, adormeceu. E sonhou.
No sonho, Ana tinha o pai. Do jeitinho que ela lembrava. O querido papai. Era assim: Eu pequena, deitada e confortavelmente acolhida aos braços do meu pai. Braços quentes e fortes. Seguros. E o que fazíamos? Observávamos a nossa querida mãe. Mãe e mulher que habitava o céu e ofuscava o brilho intenso da sua estrela. Protegia-nos. Isso, exatamente assim que Ana era guardada. Pai na Terra mãe no céu. E não precisava de mais nada.
Acordou. Olhou ao redor e percebeu os ponteiros do relógio que marcavam cinco e vinte e uma da manhã. Isso foi um sonho. É, um sonho. Estava começando a ceder. Sonhar era mesmo incrível e nunca tinha parado para pensar nisso. Admitia à si mesmo... Que maravilhoso é o sonhar! Pudera eu ter feito isso mais vezes: Deixar a mente vazia, pensar em coisas boas. Esquecer. É, esquecer! Deixar tudo pra lá, e... sonhar. Só isso.
Assim que chegou para o café, os pensamentos e ideias espairecidas de Ana foram interrompidos por observações completamente desnecessárias "Já escovou os dentes, Ana?" "Não tenho tempo de te buscar na escola hoje, marquei horário no salão." Isso foi o que salvou o dia. Assim que saísse da escola, Ana passaria na biblioteca visitar o Seu Eugênio e dizer à ele todas as conclusões que conseguiu chegar. E agradecer também. Nunca é tarde para dizer um bonito e generoso "Obrigada" para quem conseguiu fazer com que víssemos a vida de um jeito mais intenso. Mais bonito. Mais sonhador.
Assim que o sinal da última aula tocou, Ana arrumou suas coisas e saiu. Andou súbito e ligeiramente os dois quarteirões que separavam a escola da biblioteca. Vamos Ana, corra! Chegou lá e deparou-se com homens empacotando os livros em grandes caixas e pondo-ás num caminhão. Havia uma mulher também que disse a Ana as seguintes palavras:
— Você é a Ana? — Pobrezinha...
— Sim. A senhora sabe onde está o Seu Eugênio? — Tudo parecia um truque, outro bruto golpe da vida. Aqueles que vêm como furacão e levam parte de nós.
— Olhe Ana, não sei como dizer isso. O Seu Eugênio teve que viajar... Foi fazer parte da nossa constelação de estrelas. — A menina deixou cair uma lágrima.
— Assim, tão... de repente? — Fraquejei, bambeei. Já estava chorando.
— É... — Ana virava as costas quando a mulher chamou seu nome. Teve medo: O que mais ela poderia querer me dizer?
— Encontrei na gaveta dele, um livro e um bilhete destinados à você. Estão lá em cima do balcão. Vá. — Ingenuidade em pessoa era aquela pequena garotinha.
Ana correu. Podia ver o azul do livro. Aproximou-se. Pegou o bilhete e, em prantos leu as seguintes palavras: "Queria Ana, quando estiveres lendo este bilhete, espero que já tenha me conhecido. Talvez não houve tempo suficiente para dizer tudo o que queria e fazer por você tudo o que seu pai havia me pedido. Porém, entrego-lhe este livro em nome dele. É um segredo nosso. É um sonho do seu pai que ele queria mostrar à você. Eu espero que goste. E lembre-se, Ana: Nunca deixe de sonhar. Abraços do velho moribundo da biblioteca central, Seu Eugênio."
O nome do livro? "O Vendedor de Sonhos." O autor? "Augusto Cury." O meu Augusto, meu querido pai.
- Karla Reis. (@karlarreis)
No words ;)
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