Me sento na terceira carteira, na fileira da porta. Fico olhando para o quadro, tentando absorver cada palavra, e me concentrar na matéria. Mas, há uma coisa que me tira a atenção. Não posso deixar de notar os olhos dele, que tanto piscam. Observar os seus gestos realizados com as mãos, e seu leve sorriso, talvez pela alegria de dar aula. Nesse momento ele fala sobre concordância verbal, ao mesmo tempo que tenta conter a bagunça da sala. Vez ou outra, desfila seus olhos sobre mim, mas tenta não mantê-los por muito tempo. Não me pergunte o porquê.
Ele me intimida. Minha mão sua, meu tronco adormece, começo a gaguejar quando falo e borboletas tomam conta do meu estômago quando estou perto dele, ou quando percebo seu olhar sobre mim. Talvez ninguém tenha percebido, mas ao falar dele, minha voz fica doce e tranqüila, e eu perco a noção das palavras. Pelas minhas notas, eu sou a aluna mais aplicada na matéria. É isso que me deixar orgulhosa. Perder incontáveis minutos admirando-o e ainda conseguir prestar atenção.
Falta apenas um minuto pra aula acabar, e eu dou lentas batidas com a caneta em minha mesa rezando pra esses eternos sessenta segundo se acabarem logo, pra eu poder ir pra casa pensar no professor tranquilamente. Eu tenho essa paixão guardada comigo desde o começo do ano. Às vezes ele me chama para conversar particularmente, e ver se eu realmente aprendi a matéria. Mas, nada mais que isso. Felizmente. Ou, infelizmente, não sei. Ele já deve ter notado essa minha obsessão por ele, e todo meu conhecimento sobre sua vida.
Aqueles eternos sessenta segundos acabam e o sinal toca. Organizo todas as minhas coisas e, aparentemente, sou uma das últimas a sair da sala. O que não é tão raro. Até que ouço chamarem por meu nome. Respiro, respiro, inspiro. Crio coragem e viro cento e oitenta graus, encarando-o fixamente. Ele sorri. Um sorriso largo e sem malicia, que porém, aparentava ter alguma intenção.
- Venha cá. Que vergonha é essa? - A voz dele só causou impacto em meus ouvidos alguns demorados segundos depois. Aproximei-me tanto que, sem perceber, fiquei a um palmo dele. Mas um pouco e eu poderia sentir sua respiração acariciar meu rosto; já que ele estava sentado e praticamente do meu tamanho.
- Sim, prof.. Fessor. - Gaguejei. Minhas mãos tremiam e eu tentava fixar meu olhas sobre os inúmeros livros que ele mantinha sobre a mesa, mas constantemente nossos olhares se cruzavam.
- Como você está bonita, Kate. - Ele disse sorrindo e colocando uma mecha do meu cabelo levemente grudada ao suor do meu rosto atrás da minha orelha. Fiquei vermelha. E quis, mais que tudo, que existisse um buraco no chão, onde eu pudesse me esconder até ele ir embora.
- O.. obrigada, professor. - Foi só o que conseguir dizer. Nenhuma outra palavra seria apropriada ao momento.
- Talvez você não tenha percebido, mas eu já venho observando o seu comportamento em relação a mim. Sabia? - Silêncio.
- Não. - Disse logo de cara.
- Pois é, eu notei isso. E venho admirando cada dia mais. Seu interesse em saber onde eu vou, com quem vou, onde moro, onde como, o que como, o que respiro. - E foi despejando uma lista de coisas enquanto levantava meu rosto com seu dedo indicador. - Você é uma das minhas melhores alunas, Kate. Isso são como pontos extras pra você. - A boca dele estava a centímetros da minha, e conforme nos aproximávamos eu podia sentir cada vez mais forte o cheiro de menta e cigarro que vinha de sua boca. Bambeei. Naquele momento só consegui pedir forças Deus para me manter em pé.
Logo ele me selou. Foi um selinho molhado e demorado. Sem pensar, deixei meu fichário cair e entrelacei meus braços ao redor do seu pescoço branco e começamos um beijo. Lentamente ele introduzia sua lingua dentro da minha boca. Os segundos pareciam se eternizar. Sem ter mais a noção de nada, massageei seus cabelos com minha mão. Nossos corpos se uniam de uma forma perfeita, que não dava para explicar. Aos poucos, fui me afastando, deixando somente minha testa colada com a dele, para que pudesse sentir seu coração pulsar. Nossa respiração estava ofegante. Resolvi abrir os olhos para ter certeza de tudo aquilo; que parecia até um sonho.
Conforme minhas pupilas se abriam, ouvi um som tão comum que gritava, chamando meu nome. Ele dizia:
"Levante, Kate. Já está na hora do almoço. Você dormiu demais".
Acordei.
Karla Cristina.
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